
O diretor de fotografia Carlos Ebert, entrou para a história do cinema brasileiro, quando tinha apenas 19 anos de idade, ao participar do clássico “O bandido da luz vermelha” (1968). Recentemente Ebert esteve em Natal/RN ministrando um curso de Cinematografia Digital onde concedeu entrevista a jornalista Adriana Amorim.
por Adriana Amorim
Termina neste sábado, 15/11/2008, o curso de Cinematografia Digital promovido pelo Centro Técnico Audiovisual do Norte e Nordeste (Canne) em parceria com a Fundação José Augusto (FJA). Cerca de 25 pessoas que já possuem conhecimentos prévios sobre o assunto estão, desde terça-feira, aprofundando noções técnicas e artísticas relacionadas à captação de imagens em movimento em suporte digital, com apoio do curso de Jornalismo da Universidade Potiguar. Natal é a terceira capital a oferecer o minicurso de 40 horas/aula, que está sendo ministrado pelo renomado diretor de fotografia Carlos Ebert, membro da Associação Brasileira de Cinematografia e conhecido, ainda hoje, por sua atuação no clássico nacional ‘O bandido da luz vermelha’ (1968), de Rogério Sganzerla, quando tinha apenas 19 anos de idade. Nesta entrevista, Ebert aborda, entre outros assuntos, aspectos de sua carreira, que já soma 41 anos, e destaca a importância da produção de imagens para o grande público aliada ao conhecimento em diversas áreas. Confira!

Ao longo de 41 anos de profissão, o senhor sente dificuldades em se apropriar das novas tecnologias de captação de imagens?Nos últimos anos, me adaptei às novas exigências do mercado e às novas tecnologias. Os filmes, de um tempo para cá, vêm tendo seus orçamentos reduzidos e a maioria já tem sido captada em tecnologia digital. Eu não tive muito problema em me adaptar a isso até porque, na minha geração de diretores de fotografia, fui um dos primeiros a me interessar pelo suporte eletrônico. Nunca vi o eletrônico com nenhuma desconfiança, nunca achei que fosse uma tecnologia inferior. Sabia que ela ia evoluir rapidamente. E eu fui atrás, fui estudar, me interessei, comprei livros, pesquisei, troquei informações com colegas que tinham mais experiência na área e hoje me considero totalmente adaptado. Lido com o digital com a mesma desenvoltura que lido com o fotoquímico.
Tem preferência por que formato, película ou digital?Não faço mais distinção. Apenas procuro, entre os dois formatos, ver aquele que é mais adequado para o projeto específico que estou fazendo. Hoje, o cinematógrafo virou um consultor antes de ser diretor de fotografia. Antigamente, você era chamado para fazer um filme e chegava já com tudo definido, se iria ser filmado em 35mm, colorido, som direto, assim e assado… Hoje, não. Devido a essa multiplicidade de formatos e tecnologias, você é chamado primeiramente para opinar em que formato o filme deve ser captado. Então, isso aumenta a sua responsabilidade. Se você tomar uma decisão equivocada nessa primeira opinião, você vai prejudicar o filme todo. Ele vai errado até o final.
Se a responsabilidade de um ‘diretor de fotografia’ aumentou, em relação ao financeiro isso aconteceu também?Essa responsabilidade aumentou, mas isso não reverteu em nenhum benefício financeiro, ou seja, não estamos ganhando um centavo a mais para ser consultor técnico do filme nessa etapa, mas é uma coisa que eu faço com prazer. Você, na realidade, está fazendo com o que o filme tenha a melhor qualidade possível com relação ao orçamento que ele tem. Você está otimizando os recursos do filme na sua área, que é a cinematografia, ou seja, a direção de fotografia. Mas, o que tenho feito ultimamente é uma espécie de reciclagem. Adaptei tudo aquilo que eu sabia de fotoquímico para essas novas tecnologias, e gosto. Não tenho nada contra.
O senhor abandonou o curso de Arquitetura, no Rio de Janeiro, para cursar Cinema, em São Paulo. Era tudo aquilo que esperava da área?Ainda hoje só sei fazer bem isso, gosto muito do que faço. Procuro, nesse momento da minha carreira, só fazer aquilo que acho que pode ser bom, que pode ficar bem feito e que eu gosto de fazer. Estudei Arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, que na época se chamava Universidade do Brasil, mas fiquei apenas dois anos. Nesse meio tempo, abriu em São Paulo a primeira escola de Cinema do país, que era a Faculdade São Luís, e eu sempre quis fazer Cinema, me interesso por isso desde criança. Me mudei de armas e bagagens. Nunca mais voltei. Cursei a escola de Cinema e não era exatamente o que eu esperava. Ela tinha dois anos de formação teórica, sem que você sequer se aproximasse de uma câmera, e isso me causou uma certa frustração.
E o que fez para suprir isso?Os que estavam interessados em fazer cinema contornaram essa dificuldade a partir da formação de um grupo de realizadores dentro da faculdade. Começamos a filmar em Super-8, fizemos alguns filmes interessantes. E eu tive a sorte de começar a trabalhar profissionalmente em Cinema. Primeiro, como fotógrafo de cena de ‘Bebel, garota propaganda’, filme de estréia do Maurice Capovilla, em 1967, e, em seguida, tive uma sorte maior, pois fiquei amigo do Rogério Sganzerla e fomos até morar juntos com outro colega, e ele me convidou para fazer ‘O bandido da luz vermelha’. Eu, logicamente, aceitei, e o filme foi um grande sucesso.
Esse filme é, ainda hoje, considerado um clássico nacional. Em que esse precoce reconhecimento, de sua parte, resultou?Ele foi considerado, na época, um dos seis filmes brasileiros de todos os tempos. Foi uma sorte. Eu tinha 19 anos e fotografei um filme que foi sucesso absoluto de público, de crítica… Eu nem sei, hoje, se isso me fez bem, pois você fazer sucesso aos 19 anos de idade não é tão bom. Eu não soube administrar isso aí. Não acho que fiz as escolhas mais corretas depois disso. Eu poderia ter feito escolhas melhores, mas, quando você tem 19 anos, tudo é lucro, tudo é bacana. Então, foi o que foi.
O senhor comentou ter ficado frustrado com o curso de cinema por causa da enorme carga horária teórica. Hoje, qual a sua avaliação sobre teoria em cinema e vídeo?Acho importantíssimo. A prática não existe desacompanhada da teoria. No campo específico em que atuo, que é a cinematografia, acontece, hoje, o fenômeno onde as pessoas tendem apenas a copiar ações de outras. Neste curso que estou dando em Natal, por exemplo, a esmagadora maioria das pessoas já tem uma intimidade com câmeras, já gravou alguma coisa ou vem gravando. Então, elas não têm uma estranheza com o objeto ‘câmera’, mas tenho certeza também que essas pessoas não têm ou não tinham muita noção de como funciona uma câmera de vídeo ou o que ‘diabos’ acontece dentro dela. A parte teórica, principalmente para quem está começando, é muito importante, pois ela vai fundamentar a prática, vai dar uma razão à prática. A pessoa vai agir na prática sabendo o que está fazendo.
O senhor percebe que essa prática do ‘aprender observando’ é algo mais presente no Norte/Nordeste?Sinto que isso não acontece apenas no Nordeste. Sinto isso no Brasil todo. Onde tenho ido dar cursos, inclusive no exterior, quando fui ao Equador, Argentina, enfim, é uma dificuldade geral. As pessoas parecem que ignoram a lei da causalidade, da causa e efeito. As pessoas talvez não tenham a consciência, quando começam a trabalhar com cinematografia, de que, para conseguir um determinado resultado, você tem que ter conhecimentos em muitas áreas da atividade. É preciso conhecer um pouco de ótica, de física, percepção e cognição visual, tem que conhecer um pouco de técnica fotográfica, saber como se regula a luz que chega no sensor, conhecer um pouco da construção das objetivas. Se tiver um conhecimento também de história das artes visuais também é bom. Se conhecer a história do cinema, melhor ainda. A gama de conhecimentos necessários para você criar uma imagem cinematográfica é muito grande ou, pelo menos, para criar uma imagem cinematográfica que seja significativa, que tenha alguma importância para quem vai assistir.
Quem teve a oportunidade de assistir a uma aula sua sente segurança e clareza nas informações repassadas. Como surgiu esse lado ‘professor’?Sou de uma família de professores, meu pai, minha mãe, irmãos e tios dos dois lados, então, sou uma pessoa muito consciente da importância do ensino, não só na formação profissional, mas na formação do ser humano, da pessoa. A educação é o único bem inalienável. É a única coisa que você tem e que ninguém pode te tirar. O dinheiro vem e vai, a sorte vem e vai, mas o que você aprende, a sua educação, o seu conhecimento é inalienável, é uma coisa que pertence e te permite progredir profissionalmente, pessoalmente, humanamente, familiarmente, então, sou um entusiasta da educação. Acredito em educação, sempre acreditei. Tenho meu pai como exemplo, vi a extensão e o benefício que a educação pode proporcionar. Dificilmente, me nego um convite para um curso, uma oficina ou um workshop. Só se eu não puder mesmo.
É a sua atividade principal, hoje?Não considero a minha atividade principal. Continuo tendo como atividade principal a cinematografia, trabalhar fazendo filmes, televisão, cinema, comerciais, o que for. Mas, tenho um grande apreço a essa outra carreira que está surgindo para mim nos últimos dez anos. Acho interessantíssimo você conhecer uma pessoa e saber que uma semana depois contribuiu um pouco para que ela cresça profissionalmente, pessoalmente. Me faz muito bem.
Hoje, existe essa facilidade de se ter um equipamento e poder se produzir mais vídeos e filmes. Como o senhor analisa a qualidade dessas produções em massa?A produção regional e local está crescendo, mas tem essa dificuldade de não ter muitos meios do conhecimento para chegar a ter uma produção com um nível técnico e artístico que faça com que o consumidor de imagem em movimento aceite aquela produção. Depois que inventaram o controle remoto, se você não apresentar uma imagem minimamente convincente, com o mínimo de qualidade, o cara aperta o botão e te tira do ar. Com esse crescimento da atividade audiovisual por todo o Brasil, ou pelo menos pelas capitais de todas as regiões, se criou uma demanda por esse tipo de conhecimento. Em todos os cursos, a procura é sempre muito maior que a capacidade. É um indício de que existe uma demanda por conhecimento. Uma demanda grande e que está reprimida, que não tem um atendimento. Então, o Canne e a Fundação Joaquim Nabuco perceberam isso.
O que o senhor nos diz das produções potiguares?Em todos esses lugares que tenho ido, tenho visto a produção local. As daqui ainda vou assistir. Na Paraíba, encontrei uma pessoa que vai ser, certamente, um parceiro no futuro. Inclusive, ele já me convidou para fotografar seu primeiro longa-metragem. Assisti os curtas, gostei muito dos trabalhos dele, do roteiro. Então, eu também estou tendo essa oportunidade de ver o que está sendo produzido, qual o interesse, por onde anda o olhar dos cineastas aqui no Nordeste, o que está atraindo a atenção desses realizadores. O Brasil tem essa coisa fantástica de ser muito grande, são vários Brasis juntos. Ando muito pelo país e vejo que os interesses são muito diferentes.
E em relação aos fomentos ao audiovisual, o que nos diz?Acho que o maior problema está na exibição da produção. Existe bastante produção, principalmente em virtude de ser possível, hoje, se montar uma produtora a baixo custo. Então, a produção já existe. Mas, acho que tem que ser pensando a criação de canais para divulgação e exibição. As TVs públicas, os cineclubes, as associações de bairros, enfim, as organizações da sociedade civil são canais ainda inexploráveis. Em qualquer sala que se possa escurecer pode ser uma sala de exibição. Está faltando um pouco de criatividade para encontrar esses canais e talvez mais investimento nessa área da exibição do que propriamente da produção.
O que o senhor tem produzido?Este ano foi um momento de finalizar vários filmes. Finalizei três longas, um em cartaz, sendo um documentário sobre a arte contemporânea brasileira, em São Paulo; finalizei um longa-metragem ficção, ‘Fotografia de um Desnudo’, filme interessante, que tem um elenco bom, com Lima Duarte, Ney Latorraca, José de Abreu; finalizei o documentário sobre Paulo Vanzolini, ‘Homem de Moral’, e ainda tem mais um para finalizar, chamado ‘Um homem qualquer’, um longa ficção, de Caio Vecchio. Além disso, estou preparando um longa para janeiro, que é a continuação do ‘Bandido da Luz vermelha’. Todos esses como diretor de fotografia. Na verdade, dirijo muito pouco. Ano passado, por exemplo, dirigi dois documentários sobre Gal Costa e o Tropicalismo, que foram exibidos na DirectTV.
* Adriana Amorim é reporter do Jornal Diário de Natal e mantém o blog Histórias da Janela
SAIBA MAIS:
- Carlos Ebert no Multiply
- Memórias tecnológicas de um Diretor de Fotografia
- Dicas de Luz
- Centro Técnico Audiovisual do Norte e Nordeste
- Associação Brasileira de Cinematografia
por Adriana Amorim
Termina neste sábado, 15/11/2008, o curso de Cinematografia Digital promovido pelo Centro Técnico Audiovisual do Norte e Nordeste (Canne) em parceria com a Fundação José Augusto (FJA). Cerca de 25 pessoas que já possuem conhecimentos prévios sobre o assunto estão, desde terça-feira, aprofundando noções técnicas e artísticas relacionadas à captação de imagens em movimento em suporte digital, com apoio do curso de Jornalismo da Universidade Potiguar. Natal é a terceira capital a oferecer o minicurso de 40 horas/aula, que está sendo ministrado pelo renomado diretor de fotografia Carlos Ebert, membro da Associação Brasileira de Cinematografia e conhecido, ainda hoje, por sua atuação no clássico nacional ‘O bandido da luz vermelha’ (1968), de Rogério Sganzerla, quando tinha apenas 19 anos de idade. Nesta entrevista, Ebert aborda, entre outros assuntos, aspectos de sua carreira, que já soma 41 anos, e destaca a importância da produção de imagens para o grande público aliada ao conhecimento em diversas áreas. Confira!

Ao longo de 41 anos de profissão, o senhor sente dificuldades em se apropriar das novas tecnologias de captação de imagens?Nos últimos anos, me adaptei às novas exigências do mercado e às novas tecnologias. Os filmes, de um tempo para cá, vêm tendo seus orçamentos reduzidos e a maioria já tem sido captada em tecnologia digital. Eu não tive muito problema em me adaptar a isso até porque, na minha geração de diretores de fotografia, fui um dos primeiros a me interessar pelo suporte eletrônico. Nunca vi o eletrônico com nenhuma desconfiança, nunca achei que fosse uma tecnologia inferior. Sabia que ela ia evoluir rapidamente. E eu fui atrás, fui estudar, me interessei, comprei livros, pesquisei, troquei informações com colegas que tinham mais experiência na área e hoje me considero totalmente adaptado. Lido com o digital com a mesma desenvoltura que lido com o fotoquímico.
Tem preferência por que formato, película ou digital?Não faço mais distinção. Apenas procuro, entre os dois formatos, ver aquele que é mais adequado para o projeto específico que estou fazendo. Hoje, o cinematógrafo virou um consultor antes de ser diretor de fotografia. Antigamente, você era chamado para fazer um filme e chegava já com tudo definido, se iria ser filmado em 35mm, colorido, som direto, assim e assado… Hoje, não. Devido a essa multiplicidade de formatos e tecnologias, você é chamado primeiramente para opinar em que formato o filme deve ser captado. Então, isso aumenta a sua responsabilidade. Se você tomar uma decisão equivocada nessa primeira opinião, você vai prejudicar o filme todo. Ele vai errado até o final.
Se a responsabilidade de um ‘diretor de fotografia’ aumentou, em relação ao financeiro isso aconteceu também?Essa responsabilidade aumentou, mas isso não reverteu em nenhum benefício financeiro, ou seja, não estamos ganhando um centavo a mais para ser consultor técnico do filme nessa etapa, mas é uma coisa que eu faço com prazer. Você, na realidade, está fazendo com o que o filme tenha a melhor qualidade possível com relação ao orçamento que ele tem. Você está otimizando os recursos do filme na sua área, que é a cinematografia, ou seja, a direção de fotografia. Mas, o que tenho feito ultimamente é uma espécie de reciclagem. Adaptei tudo aquilo que eu sabia de fotoquímico para essas novas tecnologias, e gosto. Não tenho nada contra.
O senhor abandonou o curso de Arquitetura, no Rio de Janeiro, para cursar Cinema, em São Paulo. Era tudo aquilo que esperava da área?Ainda hoje só sei fazer bem isso, gosto muito do que faço. Procuro, nesse momento da minha carreira, só fazer aquilo que acho que pode ser bom, que pode ficar bem feito e que eu gosto de fazer. Estudei Arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, que na época se chamava Universidade do Brasil, mas fiquei apenas dois anos. Nesse meio tempo, abriu em São Paulo a primeira escola de Cinema do país, que era a Faculdade São Luís, e eu sempre quis fazer Cinema, me interesso por isso desde criança. Me mudei de armas e bagagens. Nunca mais voltei. Cursei a escola de Cinema e não era exatamente o que eu esperava. Ela tinha dois anos de formação teórica, sem que você sequer se aproximasse de uma câmera, e isso me causou uma certa frustração.
E o que fez para suprir isso?Os que estavam interessados em fazer cinema contornaram essa dificuldade a partir da formação de um grupo de realizadores dentro da faculdade. Começamos a filmar em Super-8, fizemos alguns filmes interessantes. E eu tive a sorte de começar a trabalhar profissionalmente em Cinema. Primeiro, como fotógrafo de cena de ‘Bebel, garota propaganda’, filme de estréia do Maurice Capovilla, em 1967, e, em seguida, tive uma sorte maior, pois fiquei amigo do Rogério Sganzerla e fomos até morar juntos com outro colega, e ele me convidou para fazer ‘O bandido da luz vermelha’. Eu, logicamente, aceitei, e o filme foi um grande sucesso.
Esse filme é, ainda hoje, considerado um clássico nacional. Em que esse precoce reconhecimento, de sua parte, resultou?Ele foi considerado, na época, um dos seis filmes brasileiros de todos os tempos. Foi uma sorte. Eu tinha 19 anos e fotografei um filme que foi sucesso absoluto de público, de crítica… Eu nem sei, hoje, se isso me fez bem, pois você fazer sucesso aos 19 anos de idade não é tão bom. Eu não soube administrar isso aí. Não acho que fiz as escolhas mais corretas depois disso. Eu poderia ter feito escolhas melhores, mas, quando você tem 19 anos, tudo é lucro, tudo é bacana. Então, foi o que foi.O senhor comentou ter ficado frustrado com o curso de cinema por causa da enorme carga horária teórica. Hoje, qual a sua avaliação sobre teoria em cinema e vídeo?Acho importantíssimo. A prática não existe desacompanhada da teoria. No campo específico em que atuo, que é a cinematografia, acontece, hoje, o fenômeno onde as pessoas tendem apenas a copiar ações de outras. Neste curso que estou dando em Natal, por exemplo, a esmagadora maioria das pessoas já tem uma intimidade com câmeras, já gravou alguma coisa ou vem gravando. Então, elas não têm uma estranheza com o objeto ‘câmera’, mas tenho certeza também que essas pessoas não têm ou não tinham muita noção de como funciona uma câmera de vídeo ou o que ‘diabos’ acontece dentro dela. A parte teórica, principalmente para quem está começando, é muito importante, pois ela vai fundamentar a prática, vai dar uma razão à prática. A pessoa vai agir na prática sabendo o que está fazendo.
O senhor percebe que essa prática do ‘aprender observando’ é algo mais presente no Norte/Nordeste?Sinto que isso não acontece apenas no Nordeste. Sinto isso no Brasil todo. Onde tenho ido dar cursos, inclusive no exterior, quando fui ao Equador, Argentina, enfim, é uma dificuldade geral. As pessoas parecem que ignoram a lei da causalidade, da causa e efeito. As pessoas talvez não tenham a consciência, quando começam a trabalhar com cinematografia, de que, para conseguir um determinado resultado, você tem que ter conhecimentos em muitas áreas da atividade. É preciso conhecer um pouco de ótica, de física, percepção e cognição visual, tem que conhecer um pouco de técnica fotográfica, saber como se regula a luz que chega no sensor, conhecer um pouco da construção das objetivas. Se tiver um conhecimento também de história das artes visuais também é bom. Se conhecer a história do cinema, melhor ainda. A gama de conhecimentos necessários para você criar uma imagem cinematográfica é muito grande ou, pelo menos, para criar uma imagem cinematográfica que seja significativa, que tenha alguma importância para quem vai assistir.Quem teve a oportunidade de assistir a uma aula sua sente segurança e clareza nas informações repassadas. Como surgiu esse lado ‘professor’?Sou de uma família de professores, meu pai, minha mãe, irmãos e tios dos dois lados, então, sou uma pessoa muito consciente da importância do ensino, não só na formação profissional, mas na formação do ser humano, da pessoa. A educação é o único bem inalienável. É a única coisa que você tem e que ninguém pode te tirar. O dinheiro vem e vai, a sorte vem e vai, mas o que você aprende, a sua educação, o seu conhecimento é inalienável, é uma coisa que pertence e te permite progredir profissionalmente, pessoalmente, humanamente, familiarmente, então, sou um entusiasta da educação. Acredito em educação, sempre acreditei. Tenho meu pai como exemplo, vi a extensão e o benefício que a educação pode proporcionar. Dificilmente, me nego um convite para um curso, uma oficina ou um workshop. Só se eu não puder mesmo.
É a sua atividade principal, hoje?Não considero a minha atividade principal. Continuo tendo como atividade principal a cinematografia, trabalhar fazendo filmes, televisão, cinema, comerciais, o que for. Mas, tenho um grande apreço a essa outra carreira que está surgindo para mim nos últimos dez anos. Acho interessantíssimo você conhecer uma pessoa e saber que uma semana depois contribuiu um pouco para que ela cresça profissionalmente, pessoalmente. Me faz muito bem.
Hoje, existe essa facilidade de se ter um equipamento e poder se produzir mais vídeos e filmes. Como o senhor analisa a qualidade dessas produções em massa?A produção regional e local está crescendo, mas tem essa dificuldade de não ter muitos meios do conhecimento para chegar a ter uma produção com um nível técnico e artístico que faça com que o consumidor de imagem em movimento aceite aquela produção. Depois que inventaram o controle remoto, se você não apresentar uma imagem minimamente convincente, com o mínimo de qualidade, o cara aperta o botão e te tira do ar. Com esse crescimento da atividade audiovisual por todo o Brasil, ou pelo menos pelas capitais de todas as regiões, se criou uma demanda por esse tipo de conhecimento. Em todos os cursos, a procura é sempre muito maior que a capacidade. É um indício de que existe uma demanda por conhecimento. Uma demanda grande e que está reprimida, que não tem um atendimento. Então, o Canne e a Fundação Joaquim Nabuco perceberam isso.
O que o senhor nos diz das produções potiguares?Em todos esses lugares que tenho ido, tenho visto a produção local. As daqui ainda vou assistir. Na Paraíba, encontrei uma pessoa que vai ser, certamente, um parceiro no futuro. Inclusive, ele já me convidou para fotografar seu primeiro longa-metragem. Assisti os curtas, gostei muito dos trabalhos dele, do roteiro. Então, eu também estou tendo essa oportunidade de ver o que está sendo produzido, qual o interesse, por onde anda o olhar dos cineastas aqui no Nordeste, o que está atraindo a atenção desses realizadores. O Brasil tem essa coisa fantástica de ser muito grande, são vários Brasis juntos. Ando muito pelo país e vejo que os interesses são muito diferentes.
E em relação aos fomentos ao audiovisual, o que nos diz?Acho que o maior problema está na exibição da produção. Existe bastante produção, principalmente em virtude de ser possível, hoje, se montar uma produtora a baixo custo. Então, a produção já existe. Mas, acho que tem que ser pensando a criação de canais para divulgação e exibição. As TVs públicas, os cineclubes, as associações de bairros, enfim, as organizações da sociedade civil são canais ainda inexploráveis. Em qualquer sala que se possa escurecer pode ser uma sala de exibição. Está faltando um pouco de criatividade para encontrar esses canais e talvez mais investimento nessa área da exibição do que propriamente da produção.
O que o senhor tem produzido?Este ano foi um momento de finalizar vários filmes. Finalizei três longas, um em cartaz, sendo um documentário sobre a arte contemporânea brasileira, em São Paulo; finalizei um longa-metragem ficção, ‘Fotografia de um Desnudo’, filme interessante, que tem um elenco bom, com Lima Duarte, Ney Latorraca, José de Abreu; finalizei o documentário sobre Paulo Vanzolini, ‘Homem de Moral’, e ainda tem mais um para finalizar, chamado ‘Um homem qualquer’, um longa ficção, de Caio Vecchio. Além disso, estou preparando um longa para janeiro, que é a continuação do ‘Bandido da Luz vermelha’. Todos esses como diretor de fotografia. Na verdade, dirijo muito pouco. Ano passado, por exemplo, dirigi dois documentários sobre Gal Costa e o Tropicalismo, que foram exibidos na DirectTV.
* Adriana Amorim é reporter do Jornal Diário de Natal e mantém o blog Histórias da Janela
SAIBA MAIS:
- Carlos Ebert no Multiply
- Memórias tecnológicas de um Diretor de Fotografia
- Dicas de Luz
- Centro Técnico Audiovisual do Norte e Nordeste
- Associação Brasileira de Cinematografia

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